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Burnier e Cartier

burnier e cartier
Eis um disco belo, estranho e raro, que merece ser explorado. Quando eu tinha os meus quatorze anos, e me apaixonara definitivamente pela música popular, assisti na TV ao primeiro festival com o qual me envolvi pra valer, pelo menos como telespectador, acompanhando do começo ao fim, lendo as materias em jornais, etc. Era o festival Abertura, da TV Globo, que, dentre outros méritos, lançou definitivamente o Djavan para o grande público (foi o segundo colocado, com a musica ” Fato consumado”). Quem ganhou foi Carlinhos Vergueiro, com “Como um ladrão”. Meu querido amigo Walter Franco, vaiadíssimo, foi o terceiro colocado, com ” Muito tudo”, e, na reapresentação da música, em meio aos apupos do público, plácidamente comecou a jogar cartas, em cima do palco, com o maestro Julio Medaglia. Foi um festival muito interessante, no qual, além das premiadas, a minha preferência recaiu sobre uma dupla de cantores/compositores com nome esquisito, que apresentou uma musica estranha, com sotaque pop, que não ganhou nenhum prêmio, mas me ganhou. “Ficaram nus” , Burnier e Cartier.

 

Meses depois, foi lancado pela gravadora EMI aquele que – descobri depois – já era o segundo disco da dupla. Uma capa estranha e original, só com as fotos dos dois, com o titulo “Foto para capa de LP”. Virou disco de cabeceira.

 

O que chama a atenção no disco é o uso dos violões e das guitarras. Os dois, Octávio Burnier e Cláudio Cartier, são exímios instrumentistas. Em algumas, faixas, há algum eco do Grupo D`Alma e de outros grupos instrumentais de violões. Mas, no geral, o disco tem uma cara e uma personalidade bastante marcantes, meio pop, meio erudito, meio MPB. Algumas das músicas começam quase como um estudo de violão clássico, e de repente surgem guitarras, e quartetos de cordas. Faltou a ótima “Ficaram nus” no disco, a música do festival. Mas ela é compensada com duas que remetem ao mesmo universo : “Catarina canguru” e “Minha mãe não sabe de mim”, ambas com condução precisa dos dois violões da dupla. As minhas preferidas são “Recreio” (também gravada num dos primeiros discos de Zizi Possi), “Elogio da Loucura” (essa, o maior exemplo da fusão dos violões com as guitarras, a dicotomia MPB/pop) e “Dia ferido”.

 

As letras são o que menos importa nas canções do disco. Não que sejam ruins. Mas o que mais se destaca são as melodias, os violões, as guitarras, as vozes, os arranjos.

 

Um disco diferenciado, especial. Nunca mais existiu outro disco dessa dupla. Octavio Burnier, sobrinho do compositor e instrumentista Luiz Bonfá, virou Tavinho Bonfá, autor de músicas mais para o pop (dentre elas “Clarear”, sucesso com o Roupa Nova), e com quem me encontrei em vários festivais por aí. Fizemos até uma música juntos em Cascavel (PR), mas certamente ele não se lembrará. Eu tampouco. Já Cláudio Cartier, depois desse disco, segui carreira como arranjador e compositor, emplacando sucessos como “Saigon”.
Ficou o registro do encontro de ambos nesse belo disco, relançado em CD há alguns anos, pela gravadora EMI. Talvez ainda sejam encontrados alguns exemplares em sebos ou em sites de vendas de usados.

Serviço – Trechos das músicas do disco podem ser ouvidas no linkhttp://www.cliquemusic.com.br/artistas/artistas.asp?Status=DISCO&Nu_Disco=10447

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Olho de Peixe – Lenine e Marcos Suzano

Já contei essa história em algum lugar. Tudo bem, conto de novo !

1989, pré-seleção do Festival de Avaré. Éramos cinco pessoas na minha casa, em SP, ouvindo as centenas de fitas-cassete enviadas para o festival. Chegamos a um momento em que todos ficaram cansados, e nesse tipo de triagem as obras realmente diferenciadas escasseiam. Eis que, subitamente, numa despretensiosa fita surge o som de um violão sem paralelo, com suingue e originalidade, meio João Bosco, meio aquele Gil do “Expresso 2222″. Lépidos e atentos, todos pararam e ouviram a canção até o final, sem fôlego, só entremeados pelo silêncio respeitoso e pela indagação persistente : “quem é esse cara ?” Naquele momento todos pensaram a mesma coisa : vai ganhar o festival !

 

E ganhou mesmo. Dois meses depois daquela audição, daquele jeito, só de violão e voz, num ginásio com quase três mil pessoas. Era Oswaldo Lenine Pimentel, o Lenine, interpretando o imbatível “Samba do quilombo”, letra e música dele, depois gravada pelo grupo Batacotô e por Gilberto Gil (a foto acima, à direita, é da sua apresentação no festival).

 

Voltou à Fampop no ano seguinte, quando recebeu o terceiro lugar, com “Virou areia”, música que ele só viria a gravar em 2006, no álbum “In cité”. A mesma canção viria a ser registrada, depois do festival, nas vozes de Dionne Warwick e MPB-4.

 

Desde então, Avaré ficou indissociavelmente ligada à sua carreira.

 

Ficamos amigos. Em 1992, fui à sua casa, no Rio de Janeiro, e ele me mostrou algumas faixas, ainda inconclusas, do disco que estava gravando, chamando a atenção para a coragem do projeto : um disco só de pandeiro, violão e voz !

 

Mas que pandeiro ! E que violão ! Era o embrião do “Olho de peixe”, um dos meus discos de cabeceira, uma das obras de referência da década de 90 na música popular brasileira.

 

A importância do disco é que ele transpira brasilidade por todos os poros, tanto no pandeiro de Marcos Suzano, como no suingue do violão de Lenine. E a brasilidade continua presente mesmo nas faixas com acento pop, como em “Acredite ou não”, que abre o disco, parceria com o paraibano Bráulio Tavares : “Estranho / bizarro / tudo isso aconteceu / inesperado / normal só tem você e eu”, diz o refrão.

 

Lenine gosta de Caymmi, de Jobim, de Caetano. Mas também gosta de Lulu Santos e de Rolling Stones. Nesse sentido, é um filho dileto da Tropicália, da mistura, das diferenças, num balaio que, nas letras, também mistura ficção científica e histórias em quadrinhos. Isso tudo resultou num disco originalíssimo, em onze faixas autorais, isoladamente ou em parceria.

 

Bráulio Tavares, também vencedor do festival de Avaré (em 90), é o principal parceiro, contribuindo, além de “Acredite ou não”, com as ótima “Miragem do porto” (depois gravada por Elba Ramalho), “O que é bonito” (com os meus versos preferidos”eu gosto é do inacabado/ o imperfeito, o estragado/ o que dançou/ eu quero mais erosão, menos granito/ namorar o zero e o não/ escrever tudo o que desprezo/ e desprezar tudo o que acredito/ eu não quero a gravação, não/ eu quero o grito”), a suingada “Caribenha nação” e a ciranda”Gandaia das ondas”. A emocionante “Mais além”, também com acento pop, traz, além de Bráulio , a participação autoral de Ivan Santos e Lula Queiroga, este também o parceiro de Lenine em “O último por do sol”.

No meio de tantas canções marcantes e bem feitas, se destaca uma que, ao meu ver, é uma das raras que pode ser chamada de “clássica”, na produção da música popular brasileira dos últimos 20 anos : “Leão do norte”, faixa 9 do CD. A começar pela condução do violão de Lenine, originalíssima, e que se tornou uma influência, a partir daí, para as novas gerações de compositores e instrumentistas. Conheço dezenas de compositores jovens, na casa dos 20 anos, que tem essa forma de tocar como influência. E “Leão do norte” não é só a condução do violão, mas o vigor musical, melódico, e a letra excelente de Paulo César Pinheiro, homenageando o Pernambuco natal de Lenine, com o conhecido refrão “Eu sou mameluco/ sou de casa forte/ sou de Pernambuco, eu sou o leão do norte”.

“Leão do norte” é uma das minhas canções preferidas, um modelo de música bem-feita, e extraordinariamente bem executada, só com violão, percussão e voz, na gravação do disco.

“Olho de peixe” representa a demonstração inequívoca do talento desse pernambucano com nome de líder bolchevique (seu pai era comunista), que influenciou fortemente a música popular brasileira contemporânea. Vinte anos depois, com sua carreira consolidada internacionalmente, ainda não me sai da cabeça a audição daquela fita, na Alameda Franca, 1188, apartamento 32, quando ouvi, pela primeira vez, a música de Lenine.

 

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