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“Primeira” de Juca Novaes e Felipe Radicetti

“Primeira” é uma parceria de Juca Novaes com o compositor, tecladista e ativista cultural carioca Felipe Radicetti, que a incluiu no seu álbum “Sagrado Profano”, de 2009.
Felipe convidou os Trovadores Urbanos, grupo do qual Juca faz parte ao lado de Eduardo Santhana, Valéria Caram e Maída Novaes, para interpretar a canção, que fala de um tema universal : o primeiro amor. O resultado, como vocês poderão ouvir, foi uma gravação diferente da natureza “acústica” dos trovadores, com um arranjo de timbres eletrônicos muito bem feito por Felipe. Ouçam como ficou.
PRIMEIRA
Juca Novaes e Felipe Radicetti
O primeiro olhar foi como flecha tão certeira
O primeiro toque teu veneno, feiticeira
Primeira lua cheia
Primeira brincadeira
A primeira vez foi uma festa em meu coração
O primeiro beijo acendeu tantas fogueiras
O primeiro amor assim de todas as maneiras
Estradas, cachoeiras
A pressa e as promessas
As primeiras juras, o primeiro desamor
O primeiro norte
O primeiro corte
Foi você, primeira morte
O primeiro sonho, tua vida por inteira
O primeiro fogo nos teus braços, companheira
Primeiras rezadeiras
Ciganas, benzedeiras
Primeiras alianças
E o primeiros dissabor
A primeira rima
O primeiro clima
Foi você primeira sina
A primeira dança
A primeira vez
Meu primeiro algoz, o primeiro amor
Ficou na poeira
Foi na corredeira

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Kathmandu

Em 1995, Juca estava preso no trânsito de São Paulo, após um temporal que inundou a cidade. Com o rádio ligado, ouviu uma entrevista do então prefeito Paulo Salim Maluf, que dentre outras pérolas, afirmava que “trânsito é sinal de progresso” e “quem não gosta de trânsito que vá pra Kathmandu, no Nepal”. Imediatamente, começou a escrever a letra de uma canção que foi terminada com Eduardo Santhana, e virou o funk “Kathmandu”, que deu nome ao disco da dupla Juca e Edu, em 2000. Quem também gravou muito bem a música foi Jane Duboc, com arranjo e violões do mestre Arismar do Espírito Santo. Aqui vamos relembrar a versão da dupla, com arranjo de Pichu Borrelli e Sérgio Bello.

KATHMANDU
Engarrafou o dia na cidade nervosa
e o rádio anuncia que o mundo já parou
Já parou
Em uma tarde punk, perdida, perigosa
A água invadindo e a minha luz apagou
Por todos os caminhos
Qualquer das direções
A marcha do progresso
Não aponta soluções
Pra baixo do tapete
Uma idéia surreal
Quem não gostou, que embarque
Num foguete pro Nepal
Todo mundo indo embora pra Kathmandu
Kathmandu, Kathmandu
As marginais não param lá em Kathmandu
Kathmandu, Kathmandu
A vida é bem melhor em Kathmandu
Sem esses governantes cá da América do Sul

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“Peregrino” de Juca Novaes e Eduardo Santhana

Em 1994, Juca Novaes e Eduardo Santhana criaram uma canção, com o objetivo de ser gravada no disco que os Trovadores Urbanos preparavam (disco esse que saiu em 1995 com o título de “Serenata”). A canção foi inspirada no universo das serenatas, e não apenas foi incluída no disco do grupo, como também passou a fazer parte das serenatas dos trovadores, sendo cantada, desde então, em centenas e milhares de residências, nos últimos 21 anos. Por essa razão, é uma das mais conhecidas criações da dupla, embora muitos não saibam da sua verdadeira autoria. Essa canção, intitulada “Peregrino”, também foi gravada por Lucila Novaes, no seu primeiro CD, “Frestas de céu” (1997), com arranjo de Ítalo Peron.

Peregrino
Vim te buscar na luz clara do farol
que ilumina a noite
segui teu lume oh lua com luz de sol
tão logo o dia se foi
te trouxe a palavra derradeira
vim minha estrela derradeira
como um peregrino saído da escuridão
vim depois de todas as trincheiras
vim pois te busquei a vida inteira
vim como um menino
que encontra o seu coração.

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Hino da Proclamação da República

marechal-deodoro

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Meio Almodovar – canção

Dois anos sem escrever no blog, que vergonha ! Como justificativa, posso dizer que nesse período muitas coisas mudaram na minha vida pessoal e profissional. Do pessoal, quem me é próximo sabe. Do profissional, basta dizer que lancei dois discos nesse período, “Aldeia” (2009) e o recém- lançado “Goa”, que vai virar DVD/CD ao vivo, gravado no SESC da Vila Mariana, em São Paulo, no dia 12 de abril de 2011. Isso sem contar o “Amor até o fim”, dos Trovadores Urbanos (2010), disco complexo e extenso, trabalho suficiente, portanto, pra justificar falta de tempo.

 

Está na lista de minhas resoluções pra 2011, rs… : prometo ser mais assíduo, pessoal !

De qualquer maneira, estou aqui, de volta ao “De cabeceira”. Teria várias coisas pra comentar, pra destacar, assuntos pra virarem tópicos do blog. A seu tempo, eles serão postados. Mas preferi reinaugurar o espaço falando de uma canção que faz parte do meu disco “Goa”. Sei que elogio em boca própria é vitupério, mas, como verão, não se trata disso, eis que aqui estarei apenas como narrador objetivo de fatos. Ademais, não apenas por ser uma música importante da minha discografia, mas também porque, além do curioso processo de sua criação, que narrarei adiante, ela me apresentou uma série de bônus e ônus em feed backs na Internet, que bem ilustram as possibilidades e loucuras que permeiam o espaço internético nesses nossos tempos.A história é a seguinte : Fiz o começo dessa letra há um ano e meio, dois anos, mais ou menos. Já estava gravando o disco, e pensei : “essa é pro Lenine”. Amigos há muito tempo, já tínhamos falado em uma parceria, nunca concretizada. Entreguei-lhe, então, um início de letra, que era o seguinte: “Foi só um ensaio / foi só um insight / durou muito pouco / doeu muito mais / foi trailer de filme / ensaio de orquestra / foi jogo suspenso / no auge da festa / foi curto e intenso / canção de Caymmi / foi meio Almodóvar / foi meio Fellini / foi como um cometa / no céu da cidade / foi breve promessa de felicidade”.Ele gostou, e ficamos de combinar o próximo capítulo. Nesse interregno, continuei gravando o disco, e as músicas foram ficando prontas, a coisa avançando…e nossas agendas não combinavam. Fui pro Rio, ele veio pra São Paulo, mas sempre na correria, sempre sem tempo, e o tempo passando…

Aí chegou um momento em que olhei o calendário e falei pra mim mesmo : “ou eu mudo tudo ou não vai rolar essa música”. E, realmente, estávamos no início de setembro (de 2010), o disco já tinha pré-lançamento programado para o final de novembro, e todas as outras faixas estavam praticamente prontas. Eu tinha umas três semanas, no máximo, pra que a música fosse concluída, para que eu a gravasse, mixasse e masterizasse com as demais canções do disco, pra que desse tempo do produto ser finalizado até a data agendada.

Diante dessa impossibilidade temporal, liguei pro Lenine e combinei o seguinte : “me devolva a letra, que eu termino a canção, e aí cantamos juntos na gravação”.

Ele topou, e aí eu tive que pegar aquela letra dolorida, reviver de novo as razões pelas quais escrevera aquilo, e avançar mais ainda num masoquismo saudável (porque artístico) mas ainda assim incômodo e auto-flagelante. Me debrucei sobre aquela história durante alguns dias, e a música saiu, com começo, meio e fim. Com aquela letra original, agora musicada por mim, com introdução vocal e tudo, e mais um refrão, com os seguintes versos : “eu morro de saudades do que era pra viver/ e vivo da viagem de reencontrar você/ meus olhos do passado num futuro que nem sei/ de tantas outras vidas/ mil pontos de partida/ e todos os detalhes do que não aconteceu/ repetem o roteiro pra mostrar você e eu/ o filme recomeça e nunca chega até o fim / e nessa nova vida / não tem a despedida”.

Demorou uma semana, digamos, pra que eu a concluísse. Mostrei ao Fontanetti, produtor do disco, que criou a levada do violão, chamou o grande baixista Silvinho Mazzucca, e o também excelente baterista Sérgio Reze. Em mais uma semana, a base de violão, guitarra e baixo estava pronta. Quando chegou esse momento, eu já fizera mais uma parte da letra, para ser cantada na repetição da melodia da primeira parte: “foi só a voz guia/ foi nem a metade / foi estrela guia / foi tanta verdade / um mero rascunho / mas foi divindade / grafite no muro da minha saudade”.

 

Estava pronta a canção.Gravei os vocais, cantei a música em dois canais. E aí Fontanetti enviou aquelas gravações instrumentais/vocais por email para o Tolstoi Junior, guitarrista do Lenine, que recebeu os arquivos, e, equilibrando a agenda do seu estúdio com a já louca agenda do galego, conseguiu um espaço pra gravação daquela participação especial.Liguei pra ele : “Lenine, quer que eu também te mande a gravação pra você ir ouvindo a música ?” A resposta : “Não quero ouvir nada antes. Quero chegar no estúdio sem conhecer nada, pra gravar com a emoção da primeira audição”.

Senhoras e senhores, deu certo, mas foi aos 45 do segundo tempo. Quase na prorrogação. Recebemos a gravação das vozes de Lenine na madrugada de sexta-feira, dia 8 de outubro. Ele a gravara algumas horas antes. Na tarde daquela mesma sexta-feira, eu iria pra Avaré, dirigir o festival, que seria finalizado no domingo, dia 10, com show de Caetano Veloso. No dia 11, segunda-feira, eu deveria estar novamente em São Paulo, para a masterização do disco, às dez da manhã.

Foi a toque de caixa, portanto, que Fontanetti e eu editamos as vozes, de Lenine e a minha. Ambos tínhamos gravado a música inteira, em dois canais. Quem canta primeiro ? Quem canta depois ? Quem faz a primeira voz ? Quem faz a segunda ? Definimos o mapa da coisa, e aí eu saí de viagem, deixando ao produtor a finalização do trabalho, com a gravação do piano do José Godoy, e a mixagem da canção.

(digno de registro que me emocionou a sensibilidade e generosidade do meu companheiro de gravação, que arrasou em sua participação).

Tudo deu certo, afinal. A música recém-composta, a gravação de afogadilho, pela Internet, a finalização na tal undécima hora…Masterizamos no prazo, o disco ficou pronto.
(Pra quem ainda não conhece e quiser ouvir o resultado final, eis um link do youtube : http://www.youtube.com/watch?v=BtnaK4JKkQ8)Lançado o “Goa”, “Meio Almodóvar” logo começou a ser executada em algumas rádios, e teve início um impressionante retorno na Internet, de pessoas tocadas pela canção. Em redes sociais, em blogs, no You tube… Na verdade, tudo é muito recente. A caminhada está no comecinho (afinal, a música foi criada há pouco mais de seis meses…), mas a largada, saibam, foi muito promissora.E aí veio uma espécie de efeito colateral da coisa. Fui gravar um programa de TV, e a produtora perguntou à minha assessora de imprensa : “só confirmando a autoria da música : Nado Siqueira e Juca Novaes, é isso ?”

“NADO SIQUEIRA ? Como assim ? Quem é Nado Siqueira ?”

Pois é, gente. Quem é Nado Siqueira ? Procurem por “Meio Almodóvar” no Google. Em vários sites constará a autoria como “Nado Siqueira/ Juca Novaes”.

Vejam só. Pra chegar ao “Meio Almodóvar”, eu, no mínimo, assisti a todos os filmes do Almodóvar e do Fellini, ouvi canções de Caymmi e de tantos outros, gravei quinze discos, e portanto gravei muitas vozes guias, vi cometas no céu da cidade, criei mais de 200 canções, li e ralei pra caramba, aprendi a canalizar minhas paixões pra musica, tive uma experiência pessoal riquíssima que inspirou essa canção, e o Nado Siqueira, que nem sei quem é, chega sem passar por nada disso e, assim, subitamente, sem aviso prévio, vira uma espécie de sócio ?

Que a Internet é terra de ninguém, eu já sabia. Que os dados que surgem nos websites e páginas do gênero precisam ser checados, também sabia. Que é preciso separar o joio do trigo nessa imensa quantidade de dados e informações, também sabia. A única coisa da qual não sabia fica na pergunta que deixo aqui, pra encerrar esse meu alegro ma non troppo :

Gente, afinal, quem é Nado Siqueira ????

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Guardanapos de papel

Canção, eis a paixão da minha existência.Sendo mais específico, a chamada canção popular urbana : aquela que todos os que tem mais de vinte e cinco anos aprenderam a conhecer, ouvir e curtir, seja da lavra de um Chico Buarque, seja de um Nando Reis, seja de um Tom Jobim, seja de um Stevie Wonder, seja de uma Adriana Calcanhoto, seja de um Paul Mcartney, seja de um Vander Lee, seja de um Lenine…

O que motivou cada um desses autores a fazer essa ou aquela canção ? Em que contexto foi criada ? Quais os seus elementos ?Falo da canção cujo formato se delineou no decorrer do século XX, com melodia, letra, harmonia, ritmo. A partir dos anos 60, essa canção popular deixou de ser um objeto apenas de entretenimento, e passou a representar algo mais sólido, culturalmente falando. No Brasil, passou a ter um patamar similar à literatura, ao teatro… Eu me acostumei a ver a canção a partir desse ângulo de visão. Nos anos 70, por exemplo, cada disco novo do Chico Buarque, do Gilberto Gil, do Milton Nascimento, era recebido como um baú cheio de maravilhas. A conjuntura política de então conferia um sentido diferente àquelas obras, estimulava os autores a usar cada vez mais criatividade para driblar a proibição de falar sobre determinados temas ou abordagens. Certamente, esse clima pesado estimulou a criação. Porisso, as canções daqueles LPs lançados naqueles anos ficaram entranhados em nossas almas. Cada acorde, cada verso daquelas músicas estão em nossas memórias afetivas, tanto os momentos mais brilhantes, como até aqueles nem tão criativos.

Há alguns anos, teve início uma discussão, iniciada pelo escritor e crítico musical José Ramos Tinhorão, tendo como eixo o entendimento de que a “canção acabou”, e que o rap seria a nova forma de instrumentalizar a música popular, nesse cenário repleto de inovações tecnológicas, digitalização, difusão da música na rede Web, etc. Os novos formatos de canção popular, diz Tinhorão, privilegiam o ritmo e a palavra, sendo que outros elementos, como harmonia e melodia, fariam parte de um espécime em extinção.A questão é polêmica, e prometo voltar a ela num outro post. Por hora, quero dizer que tudo o que escrevi até aqui, na verdade, é só um preâmbulo para falar de uma das minhas canções de cabeceira, daquelas que o autor acertou “na veia”. Isso não acontece a toda hora. Às vezes, é por causa da letra. Outras vezes, por causa do refrão. Ou por causa da melodia. Ou daqueles acordes. Ou do tema. Ou da construção da coisa. Sabemos reconhecer quando a canção nos pega, nos toca, de alguma maneira. Falei disso na letra de uma canção que fiz com Edu Santhana, “Decolagem” : “vai saber / se na palavra ou no som / acende um brilho de néon/ bem lá no fundo, coração, alma da gente” . Em suma, falo de canção que nos faz ter uma inveja saudável, tipo “essa eu queria ter feito”.

E eu queria ter feito “Guardanapos de papel”.

Canção criada por um uruguaio, Leo Masliah, sob título “Birromes y servilletas”. Essa canção foi vertida para o português pelo carioca Carlos Sandroni, com o nome “Guardanapos de papel”, quase uma tradução literal da letra original. A irmã de Carlos, Clara Sandroni, gravou essa versão, no disco que lançou pela gravadora Kuarup, em 1987.

Me apaixonei, fiquei enlouquecido por essa música. Tanto que quando produzi o CD de minha irmã Lucila, quase dez anos depois, sugeri que ela a gravasse. Mas a canção não combinava com o restante do disco. Foi então que Milton Nascimento a gravou, em seu disco “Nascimento”. Lindamente. Em duas versões : a original, em espanhol, e a versão em português. Para os que conheciam o original em espanhol, a versão em português ficou muito mais bonita. A versão de Leo Masliah é mais rápida, quase irônica. As versões de Clara Sandroni e, principalmente, a de Milton Nascimento, conferiram um lirismo, uma força à canção que a matriz não tinha.É uma elegia, uma ode aos poetas da canção. Melodia inspirada, letra poderosa, com imagens de grande beleza. Se tivesse sido lançada num dos discos de Milton Nascimento dos anos 70, certamente seria uma referência, cantada nos bares país e mundo afora, indicada em provas do vestibular… Como só veio à luz quando a mídia já não se importa mais pelos discos de Milton Nascimento, ela ficou quase como uma obscura pedra preciosa, compartilhada silenciosamente por aqueles mais ligados ao universo da música.

“Guardanapos de papel” é uma das minhas canções de cabeceira.

Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados
Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas
Não desejam glorias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro

When you write an essay for money you are furthering the sub-specialization of the human labor force that has led to such miraculous fields as robotics and stem cells.
Serviço :
Pra ouvir a versão de Milton Nascimento :
Para ouvir e ver a verão de Clara Sandroni :
Para ouvir e ver a versão original de Leo Masliah :

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GRANDE, EDGAR – LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO – CRÔNICA

(Postar um texto assim pode parecer meio preguiça de blogueiro. Mas você não vai se arrepender de lê-lo até o fim. Uma das minhas crônicas favoritas do meu cronista favorito. Toda vez que releio esse texto, me pego rindo à toa em várias passagens…)

 

Já deve ter acontecido com você.

 

- Não está se lembrando de mim?

 

Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele está ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando a sua resposta. Lembra ou não lembra?

 

Neste ponto você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, o curto, grosso e sincero.

 

- Não.

 

Você não está se lembrando dele e não tem porque esconder isso. O “Não” seco também pode insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém meu caro. Pelo menos não entre pessoas educadas. Você devia ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem.

 

Outro caminho, menos honesto, mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

 

- Não me diga. Você é o… o…“Não me diga”, no caso, quer dizer “Me diga, me diga”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com a sua agonia. Ou você pode dizer algo como:

 

- Desculpe, deve ser a velhice, mas…

 

Este também é um apelo à piedade. Significa “Não torture um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!” É uma maneira simpática de dizer que você não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve à insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.

 

E há o terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.

 

- Claro que estou me lembrando de você! Você não quer magoá-lo, é isso. Há provas estatísticas que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas não quer que ele pense que passou na sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

 

- Há quanto tempo!Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.

 

- Então me diga quem eu sou. Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:

 

- Pois é.

 

Ou:

– Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem é esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas do meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como “jabs” verbais.

- Como cê tem passado?
- Bem, bem.
- Parece mentira.
- Puxa. (Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)
Ele está falando:
- Pensei que você não fosse me reconhecer…
- O que é isso?!
- Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
- E eu ia esquecer você? Logo você?
- As pessoas mudam. Sei lá.- Que idéia!(É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O… o… como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)
- É incrível como a gente perde contato.
- É mesmo.
Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.
- Cê tem visto alguém da velha turma?
- Só o Pontes.
- Velho Pontes!(Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes… )
- Lembra do Croarê?
- Claro!
- Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.
- Velho Croarê!(Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda a cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)
- Rezende…
- Quem? Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido.
- Não tinha um Rezende na turma?
- Não me lembro.
- Devo estar confundindo. Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado.Ele fala:
- Sabe que a Ritinha casou?
- Não!
- Casou.
- Com quem?
- Acho que você não conheceu. O Bituca.Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?
- Claro que conheci! Velho Bituca…
- Pois casaram.
É a sua chance. É a saída. Você passa ao ataque.
- E não me avisaram nada?!
- Bem…
- Não. Espera um pouquinho. Todas essas coisas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?!
- É que a gente perdeu o contato e…
- Mas o meu nome está na lista, meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.
- É…-
E você ainda achava que eu não ia reconhecer você. Vocês é que esqueceram de mim!
- Desculpe, Edgar. É que…
- Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam…(Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”)
-Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
- Certo Edgar. E desculpe, hein?
- O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.
- Isso.
- Reunir a velha turma.
- Certo.
- E olha, quando falar com a Ritinha e o Mutuca…
- Bituca.
- E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
- Tchau, Edgar! Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo.

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