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Esporão Reserva Tinto

Proclamação da república
Não sou especialista em vinhos, apesar de ser a bebida de que mais gosto. Em 1995, os Trovadores viajaram a Portugal, para um show em Guimarães, a primeira capital portuguesa, cidade medieval, belíssima. Nossos anfitriões nos apresentaram os principais vinhos portugueses, dando um especial destaque para o tinto Esporão Reserva, que virou nossa bebida oficial da viagem. Voltei com duas caixas do vinho, que durou ainda alguns anos.
Como disse, não sou sommelier. Não tenho a capacidade de definir os detalhes do que eles chamam de “bouquet” do vinho – o gosto, o cheiro que a bebida exala. Definições como a seguinte, referente ao Esporão Reserva, que extraí do website http://www.wine.com.br/:“vinho tinto escuro. Aromas intensos marcados pela fruta em compota, pelas notas de menta e pela baunilha proveniente do carvalho. Em boca é encorpado, intenso, frutado, robusto, mas redondo e agradável. Taninos macios equilibrados ao bom teor de álcool. Final de boca com sabor levemente tostado”. Acho que é por aí mesmo, mas eu jamais teria a capacidade de fazer essa análise tão detalhada e precisa.
Voltamos a Portugal em 1998, para nos apresentarmos na Expo Lisboa, a última exposição internacional do século XX. E, além do privilégio de se apresentar em vários shows na bela capital portuguesa, rever o Tejo, a torre de Belém, as casas de fado, a estátua de Fernando Pessoa, mais uma vez, tive a oportunidade de voltar com uma caixa do Esporão.
Diria que é meu vinho de cabeceira, o que poderá parecer sacrilégio para alguns enólogos e sommeliers. Até porque devem existir muitos vinhos melhores e mais importantes. A propósito, pra quem se interessar pelo assunto (e eu tenho uma teoria : a partir dos 40, os homens cada vez mais se interessam por jazz e por vinho tinto), sugiro um livro que acabo de ler, e que aborda um rocambolesco fato – real – sobre fraudes em leilões de vinhos antigos, além de narrar toda a história da bebida : “O vinho mais caro do mundo – fraude e mistério no mundo dos milionários”, de Benjamin Wallace. Vale a pena.De qualquer maneira, sempre quando volto a beber um cálice do Esporão, me lembro imediatamente dessas viagens e da prazeirosa convivência portuguesa, que acabou resultando numa canção, que compus com meu parceiro Eduardo Santhana, e que estou gravando em meu novo disco:

SAMBA DAS ÍNDIAS
Meu coração de além mar
se emociona, canta e voa
caminhando nos caminhos
de Fernando Pessoa
Meu coração lá das Índias
lá da terra da garoa
contempla o Tejo e entende
as naus, as velas, a proa
Meu coração degredado
feito de indígena canoa
quase compôs esse fado
quase que não te perdoa
mas ele reconhece seus caminhos
e cá meu coração bate à toa
sorrindo embriagado do teu vinho
seguindo pelas ruas de Lisboa
Meu coração de além mar…
Meu coração corda bamba
te encontra e sente saudade
quem sabe fez esse samba
no meio dessa cidade
mas ele reconhece seus caminhos
e cá meu coração bate à toa
sorrindo embriagado do teu vinho
seguindo pelas ruas de Lisboa.
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Silvio Caldas e Trovadores Urbanos – Show

Imagine você ser fã de rock e o convidarem para fazer parte da banda do Elvis Presley. Ou que você adora jazz e o convidam para tocar com o Charlie Parker. Pô, mas o Elvis morreu ! E o Charlie Parker também ! Pois é. Acontece que éramos fãs de música popular brasileira e tivemos a oportunidade de tocar com … Silvio Caldas. Um dos mais importantes artistas da história da cultura popular brasileira. Na época com oitenta e poucos anos. Vivo, vivíssimo, e ainda cantando.

(Sessão didática: Silvio Caldas, ao lado de Orlando Silva e Francisco Alves, representou a tríade de grandes cantores populares do Brasil, na primeira metade do século passado. Elegante, vaidoso, brilhante, foi contemporâneo da chamada era de ouro da música brasileira, a partir dos anos 30. Eternizou canções como “Carinhoso”, “Chão de estrelas” (de sua autoria, em parceria com Orestes Barbosa), “Da cor do pecado”, “Três lágrimas”, “Maria”, “No rancho fundo” e muitas outras. Com o advento da bossa nova, no final da década de 50, que tornou “velhas” aquelas vozes possantes e cheias de vibrato de então, Silvio entrou numa fase descendente. Ficaram célebres suas várias “despedidas”, que eram substituídas por voltas e novos discos e temporadas.)Com muito orgulho, entramos na vida de Silvio Caldas. Começou quando o Sesc Pompéia promoveu o projeto “Via paulista” (criado por Eduardo Gudin e Costa Netto), que reunia, a cada edição, dois artistas diferentes do mesmo universo. Alguém se lembrou, então, naquele 1991, de reunir o velho seresteiro Silvio Caldas com aqueles garotos (na época poderíamos ser considerados algo assim…) que tinham aparecido no Jô Soares, falando em serenatas e cantando músicas antigas. Nos convidaram, e nós topamos correndo, por qualquer cachê que fosse. Convidaram o Silvio, ele confirmou… depois desconfirmou, querendo mais dinheiro, e talvez duvidando da competência daquele novo grupo que ousava dividir o palco com ele.

Não nos demos por vencidos : fomos a Atibaia, onde morava, e, após marchas e contramarchas, o localizamos no barbeiro. Mal humorado, não nos deu chance sequer de falarmos, já ralhando que não iria fazer show nenhum, etc. e tal. Foi então que, numa brecha da discussão, engatamos um “Eu sonhei que tu estavas tão linda”. A arrogância e a inflexibilidade daquele velho artista foi perdendo força, e quando vimos ele estava aos prantos, nos abraçando, emocionado, com aqueles “jovens” (e éramos…) cantando aquelas músicas do seu tempo…
Foi então que viramos parceiros. Minha irmã Maida virou sua empresária. E fizemos vários outros shows juntos, alguns memoráveis, como no 150 Night Club, do Maksoud Plaza. Obviamente, nós iríamos abrir a noite para ele, o grande artista, de volta ao palco. No dia da estréia, ele chegou ao nosso ensaio e comunicou : vocês vão encerrar. Eu abro a noite. E foi o que ocorreu, durante toda a temporada : o grande Silvio Caldas abria a noite. Os Trovadores Urbanos encerravam.
E o show mais memorável foi no Mistura Fina, na Lagoa, no Rio de Janeiro, em junho de 1996. Era a volta do “Caboclinho querido” à sua cidade natal, onde, durante o período em que lá foi a capital da República, viveu seus anos de ouro. Casa abarratada de gente. Quando subimos ao palco, divisei, na platéia, dentre outros, Mário Lago, Braguinha, João Nogueira, Beth Carvalho. Brinco até hoje que quase saímos do palco para pedir autógrafos nas mesas…
A última gravação da voz do velho seresteiro em disco, para nossa honra, foi em nosso CD “Serenata”, de 1995. A música, “Beco sem saída”, uma das suas últimas composições, quase o seu canto do cisne. Belíssimo, por sinal : “Agora sem você o que é que eu faço / onde eu jogo o meu cansaço quando eu quero descansar / o que é que eu vou fazer da minha vida / nesse beco sem saída que você quer me deixar / já fiz meu travesseiro do seu braço / e agora o que é que faço / pra me desacostumar / você não vai ficar fazendo graça / a uva também vira passa / você vai se machucar”. No dia da gravação, ele estava com um sério problema familiar, e, muito emocionado, chorou ao cantar a música. Aliás, sempre que ouço essa gravação, me arrepio até a medula (no link http://trovadores.uol.com.br/cds/serenata é possível ouvir a música, escolhendo a faixa “Beco sem saída”).

 

Em 1994, o levei como patrono da Fampop, em Avaré. Foi homenageado, recebeu uma troféu das mãos de Zuza Homem de Mello, e no meio daquele alarido de um ginásio de esportes lotado de jovens, pegou o microfone e, “a capella”, mandou um Carinhoso de fio a pavio, com seu vozeirão ainda respeitável. Silêncio absoluto. Poucas horas antes, o cantor Tim Maia dera um histórico vexame no mesmo palco, não conseguindo terminar o show de abertura do festival. A imagem que ficou foi do exemplo daquele velho senhor, cuja carreira de cantor tivera início no final dos anos 20, e que ali estava, do alto dos seus oitenta e poucos anos, ensinando aos mais jovens lições sobre a fragilidade da vida, sobre a onipotência do show business, sobre humildade, sobre música…
Estávamos ao seu lado no palco do último show, no Sesc Pompéia, no início de 1998. Era uma apresentação que contava também com a participação de Noite Ilustrada, Dóris Monteiro e Miltinho. Silvio se sentiu mal, saiu do palco, e nunca mais voltou. Subiu pro andar de cima poucos dias depois, depois de nos dar grandes lições de vida. E de música popular brasileira.
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Olho de Peixe – Lenine e Marcos Suzano

Já contei essa história em algum lugar. Tudo bem, conto de novo !

1989, pré-seleção do Festival de Avaré. Éramos cinco pessoas na minha casa, em SP, ouvindo as centenas de fitas-cassete enviadas para o festival. Chegamos a um momento em que todos ficaram cansados, e nesse tipo de triagem as obras realmente diferenciadas escasseiam. Eis que, subitamente, numa despretensiosa fita surge o som de um violão sem paralelo, com suingue e originalidade, meio João Bosco, meio aquele Gil do “Expresso 2222″. Lépidos e atentos, todos pararam e ouviram a canção até o final, sem fôlego, só entremeados pelo silêncio respeitoso e pela indagação persistente : “quem é esse cara ?” Naquele momento todos pensaram a mesma coisa : vai ganhar o festival !

 

E ganhou mesmo. Dois meses depois daquela audição, daquele jeito, só de violão e voz, num ginásio com quase três mil pessoas. Era Oswaldo Lenine Pimentel, o Lenine, interpretando o imbatível “Samba do quilombo”, letra e música dele, depois gravada pelo grupo Batacotô e por Gilberto Gil (a foto acima, à direita, é da sua apresentação no festival).

 

Voltou à Fampop no ano seguinte, quando recebeu o terceiro lugar, com “Virou areia”, música que ele só viria a gravar em 2006, no álbum “In cité”. A mesma canção viria a ser registrada, depois do festival, nas vozes de Dionne Warwick e MPB-4.

 

Desde então, Avaré ficou indissociavelmente ligada à sua carreira.

 

Ficamos amigos. Em 1992, fui à sua casa, no Rio de Janeiro, e ele me mostrou algumas faixas, ainda inconclusas, do disco que estava gravando, chamando a atenção para a coragem do projeto : um disco só de pandeiro, violão e voz !

 

Mas que pandeiro ! E que violão ! Era o embrião do “Olho de peixe”, um dos meus discos de cabeceira, uma das obras de referência da década de 90 na música popular brasileira.

 

A importância do disco é que ele transpira brasilidade por todos os poros, tanto no pandeiro de Marcos Suzano, como no suingue do violão de Lenine. E a brasilidade continua presente mesmo nas faixas com acento pop, como em “Acredite ou não”, que abre o disco, parceria com o paraibano Bráulio Tavares : “Estranho / bizarro / tudo isso aconteceu / inesperado / normal só tem você e eu”, diz o refrão.

 

Lenine gosta de Caymmi, de Jobim, de Caetano. Mas também gosta de Lulu Santos e de Rolling Stones. Nesse sentido, é um filho dileto da Tropicália, da mistura, das diferenças, num balaio que, nas letras, também mistura ficção científica e histórias em quadrinhos. Isso tudo resultou num disco originalíssimo, em onze faixas autorais, isoladamente ou em parceria.

 

Bráulio Tavares, também vencedor do festival de Avaré (em 90), é o principal parceiro, contribuindo, além de “Acredite ou não”, com as ótima “Miragem do porto” (depois gravada por Elba Ramalho), “O que é bonito” (com os meus versos preferidos”eu gosto é do inacabado/ o imperfeito, o estragado/ o que dançou/ eu quero mais erosão, menos granito/ namorar o zero e o não/ escrever tudo o que desprezo/ e desprezar tudo o que acredito/ eu não quero a gravação, não/ eu quero o grito”), a suingada “Caribenha nação” e a ciranda”Gandaia das ondas”. A emocionante “Mais além”, também com acento pop, traz, além de Bráulio , a participação autoral de Ivan Santos e Lula Queiroga, este também o parceiro de Lenine em “O último por do sol”.

No meio de tantas canções marcantes e bem feitas, se destaca uma que, ao meu ver, é uma das raras que pode ser chamada de “clássica”, na produção da música popular brasileira dos últimos 20 anos : “Leão do norte”, faixa 9 do CD. A começar pela condução do violão de Lenine, originalíssima, e que se tornou uma influência, a partir daí, para as novas gerações de compositores e instrumentistas. Conheço dezenas de compositores jovens, na casa dos 20 anos, que tem essa forma de tocar como influência. E “Leão do norte” não é só a condução do violão, mas o vigor musical, melódico, e a letra excelente de Paulo César Pinheiro, homenageando o Pernambuco natal de Lenine, com o conhecido refrão “Eu sou mameluco/ sou de casa forte/ sou de Pernambuco, eu sou o leão do norte”.

“Leão do norte” é uma das minhas canções preferidas, um modelo de música bem-feita, e extraordinariamente bem executada, só com violão, percussão e voz, na gravação do disco.

“Olho de peixe” representa a demonstração inequívoca do talento desse pernambucano com nome de líder bolchevique (seu pai era comunista), que influenciou fortemente a música popular brasileira contemporânea. Vinte anos depois, com sua carreira consolidada internacionalmente, ainda não me sai da cabeça a audição daquela fita, na Alameda Franca, 1188, apartamento 32, quando ouvi, pela primeira vez, a música de Lenine.

 

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