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A Cara do Brasil

Conheci Celso Viáfora em 1983, no primeiro festival de Avaré. Eu noviço na área, ele já experiente, tendo sido finalista no famoso festival da TV Cultura, e premiado em muitos outros. Ficamos amigos de cara, pois, além de ser totalmente do bem, ele também é formado em direito. E corinthiano roxo. Essa rara equação música – direito – Corinthians nos rendeu, desde sempre, muitas conversas à frente de garrafas de cerveja.

 

Naquele primeiro festival, ele não foi premiado, e após o evento fez um samba lindo, ainda inédito (que prometo que vou gravar um dia), chamado “Coração afobado”, falando daquela sua experiência de desclassificado. No ano seguinte, voltou com a poderosa “Grão da terra”, e arrebatou o primeiro lugar. Como em 1985 foi o vice-campeão, decidimos tirá-lo da competição, e desde então já fez de tudo no pedaço : foi jurado, fez shows, foi membro da comissão de pré-seleção, participou do encontro de letristas, das rodas de violão, dos jogos de futebol… virou sócio honorário da Fampop, como outros que por lá passaram e fizeram história (como, dentre outros, Jean Garfunkel, Lenine, Moacyr Luz, Rafael Altério, Chico César, Zeca Baleiro, Jorge Vercilo, Professor Pasquale, Zuza Homem de Mello…)

 

Mas o fato é que o Celso se tornou um dos maiores compositores de uma geração que ficou órfã, no panorama da música popular produzida no Brasil. A geração que era pra surgir no pós – 85, quando foi realizado o último festival de TV realmente influente, aquele que lançou Leila Pinheiro, e que acabou com a vitória de Tetê Espíndola cantando “Escrito nas estrelas”, de Arnaldo Black e Carlos Rennó. Depois daquele festival, as coisas mudaram para pior, e o jabá se consolidou cada vez mais como único critério de execução nas rádios. Não é à toa que Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano, ao escreverem a estupenda obra (em dois volumes) “A canção no tempo”, pela editora 34, tenham parado exatamente no ano de 1985, como o último em que valeria a pena ser dimensionada a trajetória da música popular feita no Brasil. Aliás, quem gosta desse assunto não pode deixar de ter esses dois livros. É referência obrigatória.

 

Voltando ao que estava dizendo : é claro que esse novo cenário tem a ver, também, com a extinção dos grandes festivais televisivos. Até porque esses eventos eram a única janela realmente democrática para surgimento de novos compositores e intérpretes. Vários dos meus ídolos saíram dos festivais, desde aqueles dos célebres anos 60 (Chico, Gil, Caetano, Edu Lobo, Milton Nascimento, Dori Caymmi, Elis Regina, MPB-4), até os dos anos 70 (Ivan Lins, Djavan, Alceu Valença, Luiz Melodia, Walter Franco…). Embora sempre existam teorias conspiratórias sobre os resultados de alguns desses eventos, a verdade é que os festivais das TVs Excelsior, Record, Tupi, Globo, representavam outros tempos, nos quais novas músicas viravam sucesso do dia pra noite porque o público dos festivais assim o queria, e não por conta de elucubrações prévias de gravadoras, como passou a ocorrer a partir do final dos anos 80. A partir daí, tiraram a opção de escolha do público, com o fim dos festivais, iniciando a invenção sucessiva de gêneros monolíticos, que passaram a dominar o mercado a cada verão : inventaram a onda sertaneja, depois a onda do axé, depois a onda do funk, depois… sempre temperada com muito, muito jabá.
Se isso não bastasse, a maior divulgadora e incentivadora dos novos compositores havia falecido no início dos anos 80, sem deixar sucessora : Elis Regina. Que lançou em primeira mão não apenas Ivan, Milton, Gil, João Bosco… mas também Jean Garfunkel, Thomas Roth, Renato Teixeira. E que, imagino, lançaria, dentre outros, Celso Viáfora.

 

Celso é um dos expoentes de uma geração que cresceu aprendendo a fazer músicas com harmonia, melodia, letra, canções que tinham idéia e elaboração. No mundo pós-Elis Regina, pós-festivais, ou seja, na geração jabá, esse tipo de artista deixou de fazer sentido. Com a falta de espaço, muitos desses criadores, a partir do meio dos anos 80, passaram a mostrar seu trabalho em festivais como o de Avaré. Celso passou por lá, Luiz Carlos da Vila também, Kleber Albuquerque também, Rita Ribeiro também, Virginia Rosa também, Ceumar também (isso pra não não falar dos sempre citados Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Jorge Vercilo, Moacyr Luz). Zuza resumiu isso num texto de 1996 : “Avaré viu e ouviu primeiro”. Pois se os festivais das redes de TV não tivessem parado em 1985, teria sido o Brasil como um todo, do Oiapoque ao Chuí, a ouvir esses nomes e suas canções, há muitos e muitos anos…

 

Celso Viáfora é um artista completo, como compositor, letrista, instrumentista e intérprete. Imagino se, com essa capacidade de fazer canções inventivas e poderosas, ele tivesse iniciado carreira em outras épocas menos tormentosas para criadores do seu naipe. Estaria, não tenho dúvidas, ao lado dos maiores nomes da chamada MPB, não apenas para poucos iniciados, jornalistas e críticos, mas para o público consumidor de música popular brasileira.

 

Em vinte e tantos anos de carreira, gravou uma meia dúzia de discos, gerando uma obra com várias canções irretocáveis. Iniciou uma bem sucedida parceria com Ivan Lins, do qual destaco pelo menos um clássico : o samba “Emoldurada”. E tem uma outra parceria que gerou uma usina de canções bem feitas e que merecem ser conhecidas : com o baiano de Serrinha Vicente Barreto, compositor cheio e suingue, com uma mão de direita inigualável no violão.

 

Pois pelo menos uma das criações da fábrica Barreto/Viáfora é uma das minhas canções preferidas : “A cara do Brasil”, gravada por Celso e também por Ney Matogrosso. Poucas vezes um texto descreveu com tanta lucidez, riqueza poética e criatividade os contrastes e contradições do brasileiro. Tive a honra de cantar no vocal que gravou a primeira versão, no disco homônimo, do próprio Celso, produzido por Helton Altman, no antigo estúdio da RGE, na Avenida Marquês de São Vicente.
Eis, enfim, uma canção que poderia fazer parte de qualquer antologia da música popular produzida no Brasil, dos últimos 20 anos.
De cabeceira, sem dúvida.

 

A CARA DO BRASIL

Eu estava esparramado na rede

jeca urbanóide de papo pro ar

me bateu a pergunta, meio à esmo:

na verdade, o Brasil o que será?

O Brasil é o homem que tem sede

ou quem vive da seca do sertão?

Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo

o que vai é o que vem na contra-mão?

 O Brasil é um caboclo sem dinheiro

procurando o doutor nalgum lugar

ou será o professor Darcy Ribeiro

que fugiu do hospital pra se tratar

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho

Ninguém precisa consertar

Se não der certo a gente se virar sozinho

decerto então nunca vai dar

O Brasil é o que tem talher de prata

ou aquele que só come com a mão?

Ou será que o Brasil é o que não come

o Brasil gordo na contradição?

O Brasil que bate tambor de lata

ou que bate carteira na estação?

O Brasil é o lixo que consome

ou tem nele o maná da criação?

Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho

que é o Brasil zero a zero e campeão

ou o Brasil que parou pelo caminho:

Zico, Sócrates, Júnior e Falcão

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho…

 O Brasil é uma foto do Betinho

ou um vídeo da Favela Naval?

São os Trens da Alegria de Brasília

ou os trens de subúrbio da Central?

Brasil-globo de Roberto Marinho?

Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal?

Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas

ou quem das ilhas vê o Vidigal?

O Brasil encharcado, palafita?

Seco açude sangrado, chapadão?

Ou será que é uma Avenida Paulista?

Qual a cara da cara da nação?

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho …

Serviço – para ver e ouvir “Cara do Brasil” com Celso Viáfora
http://www.youtube.com/watch?v=tQCJfC-eiJI

para ouvir a versão de Ney Matogrosso :

http://www.youtube.com/watch?v=GUQ7nWb_d58&feature=related

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Burnier e Cartier

burnier e cartier
Eis um disco belo, estranho e raro, que merece ser explorado. Quando eu tinha os meus quatorze anos, e me apaixonara definitivamente pela música popular, assisti na TV ao primeiro festival com o qual me envolvi pra valer, pelo menos como telespectador, acompanhando do começo ao fim, lendo as materias em jornais, etc. Era o festival Abertura, da TV Globo, que, dentre outros méritos, lançou definitivamente o Djavan para o grande público (foi o segundo colocado, com a musica ” Fato consumado”). Quem ganhou foi Carlinhos Vergueiro, com “Como um ladrão”. Meu querido amigo Walter Franco, vaiadíssimo, foi o terceiro colocado, com ” Muito tudo”, e, na reapresentação da música, em meio aos apupos do público, plácidamente comecou a jogar cartas, em cima do palco, com o maestro Julio Medaglia. Foi um festival muito interessante, no qual, além das premiadas, a minha preferência recaiu sobre uma dupla de cantores/compositores com nome esquisito, que apresentou uma musica estranha, com sotaque pop, que não ganhou nenhum prêmio, mas me ganhou. “Ficaram nus” , Burnier e Cartier.

 

Meses depois, foi lancado pela gravadora EMI aquele que – descobri depois – já era o segundo disco da dupla. Uma capa estranha e original, só com as fotos dos dois, com o titulo “Foto para capa de LP”. Virou disco de cabeceira.

 

O que chama a atenção no disco é o uso dos violões e das guitarras. Os dois, Octávio Burnier e Cláudio Cartier, são exímios instrumentistas. Em algumas, faixas, há algum eco do Grupo D`Alma e de outros grupos instrumentais de violões. Mas, no geral, o disco tem uma cara e uma personalidade bastante marcantes, meio pop, meio erudito, meio MPB. Algumas das músicas começam quase como um estudo de violão clássico, e de repente surgem guitarras, e quartetos de cordas. Faltou a ótima “Ficaram nus” no disco, a música do festival. Mas ela é compensada com duas que remetem ao mesmo universo : “Catarina canguru” e “Minha mãe não sabe de mim”, ambas com condução precisa dos dois violões da dupla. As minhas preferidas são “Recreio” (também gravada num dos primeiros discos de Zizi Possi), “Elogio da Loucura” (essa, o maior exemplo da fusão dos violões com as guitarras, a dicotomia MPB/pop) e “Dia ferido”.

 

As letras são o que menos importa nas canções do disco. Não que sejam ruins. Mas o que mais se destaca são as melodias, os violões, as guitarras, as vozes, os arranjos.

 

Um disco diferenciado, especial. Nunca mais existiu outro disco dessa dupla. Octavio Burnier, sobrinho do compositor e instrumentista Luiz Bonfá, virou Tavinho Bonfá, autor de músicas mais para o pop (dentre elas “Clarear”, sucesso com o Roupa Nova), e com quem me encontrei em vários festivais por aí. Fizemos até uma música juntos em Cascavel (PR), mas certamente ele não se lembrará. Eu tampouco. Já Cláudio Cartier, depois desse disco, segui carreira como arranjador e compositor, emplacando sucessos como “Saigon”.
Ficou o registro do encontro de ambos nesse belo disco, relançado em CD há alguns anos, pela gravadora EMI. Talvez ainda sejam encontrados alguns exemplares em sebos ou em sites de vendas de usados.

Serviço – Trechos das músicas do disco podem ser ouvidas no linkhttp://www.cliquemusic.com.br/artistas/artistas.asp?Status=DISCO&Nu_Disco=10447

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