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Guardanapos de papel

Canção, eis a paixão da minha existência.Sendo mais específico, a chamada canção popular urbana : aquela que todos os que tem mais de vinte e cinco anos aprenderam a conhecer, ouvir e curtir, seja da lavra de um Chico Buarque, seja de um Nando Reis, seja de um Tom Jobim, seja de um Stevie Wonder, seja de uma Adriana Calcanhoto, seja de um Paul Mcartney, seja de um Vander Lee, seja de um Lenine…

O que motivou cada um desses autores a fazer essa ou aquela canção ? Em que contexto foi criada ? Quais os seus elementos ?Falo da canção cujo formato se delineou no decorrer do século XX, com melodia, letra, harmonia, ritmo. A partir dos anos 60, essa canção popular deixou de ser um objeto apenas de entretenimento, e passou a representar algo mais sólido, culturalmente falando. No Brasil, passou a ter um patamar similar à literatura, ao teatro… Eu me acostumei a ver a canção a partir desse ângulo de visão. Nos anos 70, por exemplo, cada disco novo do Chico Buarque, do Gilberto Gil, do Milton Nascimento, era recebido como um baú cheio de maravilhas. A conjuntura política de então conferia um sentido diferente àquelas obras, estimulava os autores a usar cada vez mais criatividade para driblar a proibição de falar sobre determinados temas ou abordagens. Certamente, esse clima pesado estimulou a criação. Porisso, as canções daqueles LPs lançados naqueles anos ficaram entranhados em nossas almas. Cada acorde, cada verso daquelas músicas estão em nossas memórias afetivas, tanto os momentos mais brilhantes, como até aqueles nem tão criativos.

Há alguns anos, teve início uma discussão, iniciada pelo escritor e crítico musical José Ramos Tinhorão, tendo como eixo o entendimento de que a “canção acabou”, e que o rap seria a nova forma de instrumentalizar a música popular, nesse cenário repleto de inovações tecnológicas, digitalização, difusão da música na rede Web, etc. Os novos formatos de canção popular, diz Tinhorão, privilegiam o ritmo e a palavra, sendo que outros elementos, como harmonia e melodia, fariam parte de um espécime em extinção.A questão é polêmica, e prometo voltar a ela num outro post. Por hora, quero dizer que tudo o que escrevi até aqui, na verdade, é só um preâmbulo para falar de uma das minhas canções de cabeceira, daquelas que o autor acertou “na veia”. Isso não acontece a toda hora. Às vezes, é por causa da letra. Outras vezes, por causa do refrão. Ou por causa da melodia. Ou daqueles acordes. Ou do tema. Ou da construção da coisa. Sabemos reconhecer quando a canção nos pega, nos toca, de alguma maneira. Falei disso na letra de uma canção que fiz com Edu Santhana, “Decolagem” : “vai saber / se na palavra ou no som / acende um brilho de néon/ bem lá no fundo, coração, alma da gente” . Em suma, falo de canção que nos faz ter uma inveja saudável, tipo “essa eu queria ter feito”.

E eu queria ter feito “Guardanapos de papel”.

Canção criada por um uruguaio, Leo Masliah, sob título “Birromes y servilletas”. Essa canção foi vertida para o português pelo carioca Carlos Sandroni, com o nome “Guardanapos de papel”, quase uma tradução literal da letra original. A irmã de Carlos, Clara Sandroni, gravou essa versão, no disco que lançou pela gravadora Kuarup, em 1987.

Me apaixonei, fiquei enlouquecido por essa música. Tanto que quando produzi o CD de minha irmã Lucila, quase dez anos depois, sugeri que ela a gravasse. Mas a canção não combinava com o restante do disco. Foi então que Milton Nascimento a gravou, em seu disco “Nascimento”. Lindamente. Em duas versões : a original, em espanhol, e a versão em português. Para os que conheciam o original em espanhol, a versão em português ficou muito mais bonita. A versão de Leo Masliah é mais rápida, quase irônica. As versões de Clara Sandroni e, principalmente, a de Milton Nascimento, conferiram um lirismo, uma força à canção que a matriz não tinha.É uma elegia, uma ode aos poetas da canção. Melodia inspirada, letra poderosa, com imagens de grande beleza. Se tivesse sido lançada num dos discos de Milton Nascimento dos anos 70, certamente seria uma referência, cantada nos bares país e mundo afora, indicada em provas do vestibular… Como só veio à luz quando a mídia já não se importa mais pelos discos de Milton Nascimento, ela ficou quase como uma obscura pedra preciosa, compartilhada silenciosamente por aqueles mais ligados ao universo da música.

“Guardanapos de papel” é uma das minhas canções de cabeceira.

Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados
Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas
Não desejam glorias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro

Serviço :
Pra ouvir a versão de Milton Nascimento :
Para ouvir e ver a verão de Clara Sandroni :
Para ouvir e ver a versão original de Leo Masliah :
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