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Hino da Proclamação da República

marechal-deodoro
marechal-deodoroOs mais antigos, como eu, cantavam na escola esse hino de letra horrorosa, que em certas passagens diz “Seja um pálio de luz desdobrado/ sob a larga amplidão desses céus/ esse canto rebel que o passado/ Vem remir dos mais torpes labéus!”(???) …”nosso augusto estandarte que, puro, brilha, ovante (???), da Pátria no altar !”
Outro trecho inacreditável diz que “o Brasil já surgiu libertado / Sobre as púrpuras régias de pé ! Eia, pois, brasileiros, avante ! Verdes louros colhamos louçãos!” (????)
Assim mesmo, cheio de exclamações, e outros “transes supremos”, “rubro lampejos da aurora”, “grito soberbo de fé”, e outros exageros dignos do século XIX.
É claro que, pra compensar esse palavrório, tem aquele refrão mortal e imortal : “Liberdade/ liberdade / abre as asas sobre nós/ das lutas, na tempestade/ dá que ouçamos tua voz”. Pois mesmo com essa letra gongórica do jornalista pernambucano Medeiros de Albuquerque, para mim esse é o hino mais bonito já composto… na historia da humanidade ! Juro de pés juntos, sem qualquer desdouro a “La Marseilleise”, “God save the queen”e outras heróicas obras do gênero. A criação musical do nosso hino, do excelente compositor Leopoldo Miguez, é coisa linda, primorosa.
Sua história é curiosa. Quando foi proclamada a república, o governo provisório, dirigido pelo Marechal Deodoro da Fonseca, decidiu fazer um concurso para escolher o Hino Nacional, condizente com os novos tempos. Como resquício do império, havia um tema instrumental, composto por Francisco Manoel da Silva em 1831, quando Dom Pedro I iria partir para Portugal e deixar em seu lugar o filho Pedro II, ainda um menino. Esse tema teve duas ou três letras, que acabaram sendo deixadas de lado, tendo subsistido apenas a parte musical, que desde então passou a ser executada em cerimônias cívicas. Pois o Marechal Deodoro da Fonseca não o queria mais, por julgar que aquela obra musical estava identificada com o recém-derrubado governo imperial. Cheio de temores, aquele primeiro e ainda instável governo republicano queria um novo hino, que simbolizasse a República.
O governo federal criou então um concurso, que acabou dando o primeiro lugar ao tema de Leopoldo Miguez, sobre o poema de Medeiros de Albuquerque. Ocorre que, inseguro, recém-constituído, o governo republicano teve medo da “sombra” do tema instrumental antigo. E, por conta disso, optou por mantê-lo (o velho) como hino nacional, idealizando um concurso para escolha de uma letra. Que só veio a ser formalizada em 1922, quando do centenário da independência, com aquela letra que conhecemos, e que é lembrada por todos especialmente nas aberturas dos jogos de futebol.
Já o hino de Miguez e Medeiros de Albuquerque acabou ficou como “Hino à República”. Um prêmio de consolação, é claro. Mas nada disso tira dele, na minha modesta opinião, a qualidade de mais lindo hino já composto, nas plagas brasileiras e em quaisquer outras. E, se o Ivan Lins gravou como canção popular o lindo “Hino à bandeira”, se a Fafá de Belém gravou da mesma forma o “Hino Nacional”, e se eu mesmo, no âmbito paroquial, fiz o arranjo em canção para a Lucila Novaes e os Tenores gravarem o “Hino de Avaré”, aqui registro que ainda vou produzir uma gravação do “Hino da Proclamação da República”, numa versão anti- marcial, quase instrumental, com vocalises e com a letra do refrão cantada. Já tenho o arranjo quase pronto. Um dia sai.
Por enquanto, fica aqui o meu registro sobre a extrema beleza desse hino com letra horrenda, que me causava pesadelos nas aulas de música com a Dona Célia, lá no “Coronel João Cruz”, em Avaré.
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